Uma releitura dos contos "A benfazeja e Sinhá Secada" de Guimarães Rosa
“A gente é portador” Guimarães Rosa
Gritos de socorro invadem a madrugada fria. Do outro lado da rua, bem em frente a minha casa, numa clínica de repouso, não sei porque motivos despertou a interna do seu sono induzido.
No meu silêncio invadido, ouço os passos dos enfermeiros a correr pelas rampas, enquanto ela grita, diz que desejam-na matar. Suplica por liberdade. Silêncio. Somente minha alma agitada dentro do ser caminha por entre indagações e reminiscências. “ Destino , terrível” os de alguns seres humanos com suas dores e incompletudes.
Finda a noite. No decorrer de todo o dia ouve-se um canto triste que ecoa pelas janelas gradeadas. Alguma sinhá secada que “ passou a acariciar pedaço de pedra, sem graça, áspera, que trouxera para casa ou Mula-Marmela no mais fechado extremo nos domínios do demasiado?”
Indagações. Convite à reflexão. Da minha sacada não lhe é possível ver a face, mas sinto em cada chamamento, madrugada à dentro, ou na disritmada melodia, a preencher tardes vazias, “ que o que há em volta de nós é a sombra mais fechada, as coisas gerais.”
Personagem fruto de um mundo caduco ou saído de um conto rosaneano? Personagem que “ procedera mal, a cada instante, a vida inteira ou que seria capaz de destruir, de cortar com um ato de “ Não” uma existência doidamente acelerada?
Teria Rosa conseguido ultrapassar os espelhos de uma sociedade modernista, realizando um esboço da alma humana, captando a exclusão e abandono dos seres que na vida procederam mal ou dos “ que nunca pensaram nisso e culparam-na?”
Mula – Marmela, mulher capaz de matar o marido e cegar-lhe o filho, ambos perversos que se excitavam com o sangue de suas vítimas. Sinhá Secada, a que o destino, duplamente, roubou-lhe o anjo que nem chegara a andar, falar. Arrebatado dos braços da mãe, acolhido nos braços da terra..
Personagens dos contos de Rosa que se ligam por um aspecto comum: o extrapolar o limite da normalidade. “ soubesses-lhe ao menos o nome.” Tendo como cenário um pequeno lugarejo, que tiveram suas ações e impressões discutidas por um espectador privilegiado, parente ou amigo? “ Se eu disser o que sei e pensam, vocês inquietos se desgostarão.”
O homem na sua aparência “ a mulher-maladraja, a malacafar, suja de si, misericordiada, tão em velha e feia, feito tonta no crime não arrependida e guia de cego e a nem sequer era formosa, ´que continha na mão lembranças de criança, a chupeta seca, que nunca mais se olhou no espelho.”
Há dias não ouço gritos pela noite, nem canto em derredor dos dias. Acolhera-lhe a morte ou prisioneira dos medicamentos? “ É de crer que breve estaremos livres do que não amamos, do que danadamente nos enoja, pasma.” Marmela, que fosse para trazer ou dar alívio à triste sina, matou, cegou, estrangulou, levou às costas um cão abandonado e meio já apodrecido. Secada, embora semelhante à boneca de brincar de algum menino enorme, revelou a Quibi sua dor, levando à terra seus fechados sentimentos.
Tornaram-se silenciosas às madrugadas. Vazias as tardes... Desejo de a ver partir? “ Vive-se perto demais, num lugarejo.”